História de Capivari: CESÁRIO MOTTA: UMA PRAÇA E UM MUSEU

por Arnaldo Battagin, fevereiro de 2020

Uma praça e o Museu Municipal homenageiam Cesário Motta em Capivari, mas é pouco para esse cidadão, nascido em Porto Feliz que aqui viveu e que fez muito por nossa terra, por São Paulo e pelo Brasil .

Ele não deve ser esquecido e seus feitos relembrados pelo capivarianos. No museu que o homenageia existe um acervo rico sobre ele graças à dedicação de Eduardo Maluf, mas que atualmente encontra-se fechado ao público. Tal situação chegou devido ao descaso das autoridades competentes, que pela falta de recursos e, também, de vontade política, privilegiaram outras áreas.

Foi contudo uma revista editada pela Loja Maçônica de Capivari, presenteada pelo meu irmão Sérgio, que me estimulou a pesquisar a vida desse médico, educador, higienista, político, teatrólogo, historiador, que eu mal conhecia e que acredito também boa parte dos capivarianos. Como maçon participou da fundação de várias Lojas Maçônicas no interior do Estado de São Paulo e, em Capivari, foi venerável mestre da Loja Maçônica Integridade . A Loja guarda relíquias históricas como atas e vários outros documentos originais, com assinaturas de Cesário, que usava o pseudônimo de “Caning”.


Cesário Nazianzeno de Azevedo Motta Magalhães Júnior nasceu na vizinha Porto Feliz, em 5 de março de 1847. Era filho do médico Cesário Nazianzeno d’Azevedo Motta Magalhães e de Clara Cândida Nogueira da Motta. De pronto descubro uma curiosidade: a casa onde residia a família no centro de Porto Feliz quando Cesário nasceu não foi o local de seu nascimento. De fato, seu nascimento deu-se “no Sítio Grande, distante cerca de 2500 metros, então propriedade de Ana Inocência de Camargo, viúva de Antonio Rodrigues de Campos Leite, falecido durante a Revolução de 1842”, como relata Sinésio Barreto, em seu site de genealogia.

A família do dr. Cesário achava-se naquele sítio para uma comemoração, quando Cesário Motta (pai) foi chamado para ir a Campo Largo, no município de Sorocaba, atualmente município de Araçoiaba da Serra e o filho acabou nascendo, sem a presença do pai.


Cesário Motta passou toda sua infância e adolescência em Porto Feliz. Fez os primeiros estudos na cidade natal, contando com a supervisão do tio, o professor Fernando Maria Nogueira da Mota, irmão de sua mãe, com quem estudou português, francês e latim.

Depois, ingressou no Lageado, colégio de renome na época, dirigido por Francisco de Paula Xavier de Toledo, situado em Campo Largo. Sua vocação, contudo, era a medicina, mas o pai médico, obedecendo aos costumes da época, tendo uma família numerosa, mal ganhava para sustentá-la. Com a falta de recursos era praticamente impossível manter o filho numa faculdade de Medicina. Seu tio, Nuno Diogo Nogueira Motta, funcionário de uma importante casa comercial no Rio de Janeiro, conhecendo os interesses do sobrinho, escreveu-lhe convidando-o para que fosse para o Rio de Janeiro, onde poderia ajudá-lo a realizar seu sonho. Estando com 23 anos, aceitou imediatamente o convite.


HORTA MANZANO descreve que o coronel Nuno Diogo Nogueira da Mota, no Rio de Janeiro, frequentava “boas rodas, trajava-se de maneira condigna à sua posição” e dividia com o sobrinho suas roupas e botinas. Os livros eram conseguidos na biblioteca de um mosteiro.

Cesário não costumava almoçar, pois sua casa era distante e como não tinha recursos, somente no final do dia, após sair da faculdade é que voltava à sua residência para se alimentar e descansar. Cesário dividia sua paixão pelos livros e pela sua família.

A falta de dinheiro e os estudos obrigaram-no a ficar seis anos longe de Porto Feliz, dos pais e amigos e somente, depois de formado, em 1876 volta a sua cidade natal. Mas em 1873, há registros de que o jovem estudante acompanha seu pai na Convenção de Itu e, em suas recordações ( escrita em 1890 em Capivari) , reconstitui os acontecimentos dos dias 16, 17 e 18 de abril de 1873. Segundo ele, as ruas da cidade estavam enfeitadas para esperar o então presidente da Província, João Theodoro Xavier. No dia seguinte ele participaria da cerimônia de inauguração da Estrada de Ferro Ytuana, que ligava Itu a Jundiaí, onde se encontrava a ramificação para a Cia. Paulista de Estradas de Ferro, com ponto final em São Paulo e que pouco tempo depois se estenderia até Capivari, com a Estrada de Ferro Sorocabana.


Na Convenção de Itu, no dia 18.de abril, Capivari esteve representada por 13 correligionários, de um total de 133, a maioria maçons, só perdendo para Itu e Campinas, mostrando a sua importância política na época. De fato, segundo BRANDINI, Tarsila do Amaral assim se expressa em uma de suas crônicas : “Capivari era no Império, uma das cidades mais prósperas da Província de São Paulo. Lá morava muita gente ilustre. Lembrando-se dos amigos da mocidade, passou meu pai (Juca Amaral) a falar do Dr. Cesário Motta – o Dr. Cesarinho, como era chamado – médico benquisto pela sua bondade, pelo seu saber pelo seu espírito altruístico. Era muito ligado à família Dias de Aguiar a qual pertencia minha mãe”


Cesário, já na faculdade e de forma entusiasmada desenvolvia muitas ações, além das acadêmicas. Entrou para o grêmio de estudantes de Farmácia e Medicina e logo fez amizade com José do Patrocínio. Notando que ele era desprezado por causa da cor negra, Cesário imediatamente fez todos reconhecerem o talento daquele negro. Pouco tempo depois, José do Patrocínio se consagrava como um dos mais admirados oradores.


Cesário Motta Júnior casa-se ainda no Rio de Janeiro com a carioca Adelina Moreira da Silva e se estabelecem em Porto Feliz. O casal logo decide mudar-se para Capivari, ainda em 1876, onde Cesário exerceria sua profissão por mais de 10 anos. Na cidade, fixou residência num casarão situado na esquina das ruas Regente Feijó e Saldanha Marinho, que cheguei a conhecer e onde depois moraram Nhonhô Ferraz e D. Dionina de Toledo Galrão e seus filhos. Lembro-me de que aos 7 anos em 1959 ia às aulas de catecismo na Igreja de São João Batista me preparando para a primeira comunhão e Maria Sara e Maria Alzira, de saudosas lembranças, das janelas do casarão me perguntavam sobre o que tinha aprendido. Tornaram -se elas e alguns de seus irmãos amigos de minha família. Luciano, acompanhando meus pais para São Paulo nas festas de aniversários de meus filhos. “As meninas Galrão”, como as tratava minha mãe, Julieta, vieram a ser nossas vizinhas na rua Barão do Rio Branco.
Quantas vezes passei pelo casarão e pela Praça Cesário Motta, sem saber quem era o homenageado.

Imagino que o mesmo ocorreu com Maria Adélia, Fatinha, Celso Duarte, Bira, Mauro e Dorival Pagotto , para citar alguns da minha geração e tantos outros . Anita Trindade, entusiasta da história capivariana, admirando o coreto e a fonte, construídos por seu avô, também acho que não conhece (como eu) os detalhes desse cidadão . Mas existe um capivariano da nova geração que conhece bem sua história! Trata-se de Vinicius Soares de Almeida, a quem eu não conheço pessoalmente e que retratou Cesário Motta, focando-o principalmente com o autor de “A Caipirinha”, em sua excelente dissertação de mestrado, defendida em 2011 no Departamento de História da USP. Recomendo essa publicação para todos que desejarem conhecer com mais detalhes a vida de Cesário Motta Junior, visitando:


https://teses.usp.br/…/publi…/2011_ViniciusSoaresAlmeida.pdf
De fato, em 1880, Cesário Motta Júnior dedica uma parte de seu tempo ao teatro escrevendo a peça A Caipirinha, com o enredo retratando a Capivari daquela época, levada à cena por alguns atores amadores locais. GRELLET, em seu conhecido livro de 1932, nomeia esses amadores: prof. Luiz de Freitas, dr. João Mota, Oscar Mota, Candido Mota, Benedito Taques, José Pereira, José de Camargo, A. Brito, d. Ester Brito e d. Corina Berrance .Comenta ALMEIDA , que “em 1917, a peça foi levada ao palco do Teatro Municipal de São Paulo pela iniciativa de Candido Motta, que, como citado , quando criança, atuara nas primeiras apresentações. Encenada pela Companhia Dramática Paulista e protagonizada pela renomada atriz Itália Fausta, A Caipirinha marcou a temporada de espetáculos daquele ano, principalmente, por sua temática regionalista e pelo protagonista caipira, personagem que se tornou elemento constitutivo da identidade paulista”.
Mas a política também despertava sua atenção.

Em 1877, Partido Republicano Paulista (PRP) foi buscá-lo em Capivari para candidatar-se à Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo. Nas eleições, o partido conseguiu eleger Cesário Mota Júnior, Martinho Prado Júnior e Prudente de Moraes, escolhidos por suas capacidades intelectuais e pela liderança na propaganda do ideal republicano. Eram três importantes figuras do cenário político paulista daquela época, sendo os primeiros membros do PRP eleitos para a Assembleia Legislativa de São Paulo. Os três formaram um bloco político que trabalhou unido por suas ideias. No final de cada discurso, de cada projeto de lei que apresentavam viam-se as assinaturas, na maioria das vezes, do triunvirato. Educação, abolicionismo, municipalismo, federalismo e melhor uso dos recursos das loterias e do orçamento da Casa foram as principais bandeiras levantadas pelo triunvirato no biênio 1878-1879. Pouco tempo depois de proclamada a República, Cesário passou a residir em São Paulo, pois tornou-se deputado da Assembleia Constituinte, em 1891, conforme comenta JEHOVAL JUNIOR. Tornou – se conhecido e querido na Capital, tanto quanto tinha sido em Capivari não somente como médico, mas também por suas ações sociais, principalmente nas áreas da educação e saúde. A clínica médica lhe constituía verdadeiro sacerdócio e dava-lhe ensejo a estudos apurados. Republicano e deputado, teve presença de destaque no parlamento e na Secretaria do Interior.

Ocupou cargos na área educacional. Como deputado, defendeu a criação de um Instituto de Ciências Naturais, uma Escola de Belas Artes e uma Escola de Farmácia, projetos que conseguiu implantar enquanto secretário de Estado.


Dr. Cesário Motta Jr. criou o Instituto de Soroterapia (Butantã), o Jardim de Infância, a Escola Modelo da Luz, a Escola de Medicina, o Ginásio do Estado, o Ginásio de Campinas e a Escola Modelo de Itapetininga.


Foi um dos idealizadores e sócio fundador da Sociedade de Medicina de São Paulo e primeiro presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em 1895, conservando-se nesse posto até a sua morte. Acometido de moléstia grave, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi exercer o mandato de representante de São Paulo, no Congresso Federal.


Cesário Motta Júnior faleceu prematuramente aos 50 anos, em 24 de abril de 1897, um ano após a mudança ao Rio de Janeiro. Estava cego de uma vista e sabia que iria perder a outra. Seu corpo foi inumado no Cemitério Municipal de São Paulo, atual Cemitério da Consolação, três dias após seu falecimento Cesário Motta Júnior foi homenageado post-mortem como patrono da cadeira 10 da Academia Paulista de Letras, fundada em 27 de novembro de 1909.


Seu falecimento teve grande repercussão como noticia a edição de 28.4.1897 de “O Estado de São Paulo”.


“As 3 horas da tarde já era difícil o trânsito pelo largo da Sé, onde se apinhava enorme multidão”


“Grande número de senhoras, trajando lucto, occupavam a nave daquela igreja”


“Pouco depois chegava um coche fúnebre de primeira classe tirado por três parelhas de cavalos pretos para conduzir o corpo”.


“Feita a remoção das coroas, foi o caixão levado do catafalco (sic) até o coche pelos srs drs Campos Salles, Peixoto Gomide, Dino Bueno…


CESÁRIO MOTTA: UMA PRAÇA E UM MUSEU !

Fotos: Todas as fotos foram extraídas da internet
1 Dr Cesário Motta, pintura óleo s/ tela por Henrique Tavola, 1923
2 Casarão da Família Motta em Capivari, anos 1880 (colorizada por AFB)
3 Capa da Provincia de São Paulo(atual OESP) edição de 30.11.1884, com propaganda de Cesário Motta como candidato a deputado provincial
4- Herma de Cesário Motta, na Praça da República em São Paulo, inaugurada em 1909

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Redação

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