Editorial

Em eleição, as vezes, escolher um é escolher vários: o candidato e os seus comparsas

Em política, a singularização é desqualificadora. Reduz o candidato aos seus traços pessoais e afasta a interpretação do que ele representa politicamente. Indivíduos são vitrines sustentadas pelos mais diversos interesses. Escolher um candidato é optar por seu grupo e isso se deve a uma simples questão lógica: a onipotência, a onipresença e a onisciência não são atributos humanos. Homens e mulheres não são plenipotenciários nem ubíqüos. Ninguém sabe ou pode tudo em todo lugar e ao mesmo tempo. Daí que escolher um é escolher vários: o candidato e os seus comparsas. Mesmo em regimes totalitários, o poder é exercido por grupos. Pequenos, é bem verdade, mas grupos.

Qualquer candidato ao poder ou seu usurpador é a tradução dos propósitos que movem grupos, é a parte visível do iceberg. O grande risco encontra-se submerso. Mal comparando, o eleitor pode representar o barco desavisado que rasga seu casco nas afiadas lâminas que não vê, e naufraga, ou o barco instrumentado e capitaneado com a prudência que permite seguir o seu destino.

Os riscos existem e são reais. Em período eleitoral cabe decidir em que navio embarcar, sabendo que Titanics naufragam se a sua tripulação não souber conduzir a embarcação. É preciso escolher o capitão e, principalmente, os tripulantes. Sem dúvida, uma escolha política difícil, visto que nos arremessa ao espaço da ética, nos confronta com os paradoxos criados pela ambigüidade dos valores, nos situa numa geografia do dilema e da dúvida. Aliás, que lógica obedecer? Que valores respeitar? A lógica do paupável, do imediato e do interesse privado ou a lógica do longo prazo, do sustentável e do interesse coletivo? Os valores ditados pelo ego ou os valores extensíveis ao conjunto da sociedade?

Neste quadro de indagações, caberia uma última: Qual o valor de um voto?

Depende. A resposta é inevitavelmente influenciada pelas circunstâncias. Para alguém que passa necessidades materiais básicas, a satisfação de suas exigências primárias pode ser a suficiente paga. Aos enfermos, o voto pode ser a retribuição pela possibilidade da cura. Aos legionários de si mesmos, uma gama variada de benesses que somente o poder permite é o limite.

Isso significa que os votos não são conscientes? Absolutamente. Significa, tão somente, que a consciência humana resulta de operações não estritamente lógicas, que outros fatores intervêm, e que o momento eleitoral é percebido por muitos como a real possibilidade da participação e da conquista de seu quinhão junto ao poder. Neste sentido, não se diferenciam, em essência, aquele que troca o voto por um punhado de tijolos ou telhas ou uma cesta básica, daquele que vê na política uma oportunidade de, sem merecimento, galgar as dificuldades através de algum favor amigo.

Ambas são inevitáveis conseqüências da transformação da democracia em eleitoralismo. Reduzir a política ao momento eleitoral redunda permitir transformar o voto em moeda de troca de cunho conservador. Conservador porque aos desvalidos tem efeito consolador, e aos privilegiados, efeitos lucrativos. De qualquer modo, a equação se resolve na injustiça social agravada.

Enfim, é chegada a hora de decidir se atravessaremos o rio Aqueronte, na barca pilotada por Caronte, ou se perambularemos por cem anos às suas margens aguardando a redenção. A figura esquálida e grosseira do timoneiro interessa menos que a travessia a realizar. No plano político, os caracteres de personalidade são os que menos vale. O que importa é para onde e de que maneira nos deixaremos levar. Sem icebergs, sem perambulações. Sem náufragos, sem peregrinos sem destino.

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